Como a ciência redefiniu o terroir argentino: 30 anos do Catena Institute of Wine
- Cláudio Bastos

- há 1 dia
- 6 min de leitura
Por dentro do Catena Institute: o laboratório que colocou o Malbec no mapa do mundo.

Esta entrevista nasceu a partir de uma taça — ou melhor, de um vinho que carrega muito mais do que fruta e estrutura. Ao receber o Catena Appellation Lunlunta Malbec 2022, enviado pela Catena Zapata em parceria com sua importadora no Brasil, a Mistral Vinhos, para celebrar o Dia do Vinho Argentino, comemorado em 24 de novembro, algo chamou imediatamente minha atenção: a clareza com que esse Malbec expressa o terroir de Lunlunta.
Não se trata apenas de um rótulo bem elaborado, mas de um vinho concebido para demonstrar, de forma precisa e acessível, a identidade de um lugar. Essa é justamente a essência da linha Catena Appellation, construída a partir de um extenso, rigoroso e contínuo trabalho de pesquisa desenvolvido pelo Catena Institute of Wine ao longo de quase três décadas.
Movido pela curiosidade de entender como ciência, terroir e sensibilidade se conectam na prática, decidi aprofundar essa história em uma conversa com o time do Instituto. O resultado é uma entrevista que revela não apenas os bastidores do Lunlunta Malbec 2022, mas também a visão de longo prazo que posicionou o Malbec argentino entre os grandes vinhos do mundo.
Esta conversa só foi possível graças ao apoio fundamental de Renata Martins, da Sofia Carvalhosa Comunicação, a quem deixo meu agradecimento.
Meu agradecimento também ao time do Catena Institute of Wine!
A entrevista foi realizada em Inglês, aqui traduzida para o Português. Espero que vocês gostem!
1 - O que motivou a criação do Catena Institute of Wine em 1995? Que lacuna científica ou necessidade dentro da viticultura argentina levou à fundação do Instituto?
Nicolás Catena Zapata decidiu produzir vinhos que pudessem estar entre os melhores do mundo em uma época em que ninguém via a Argentina como um produtor de vinhos de alta qualidade.
Foi durante o New York Wine Experience que Laura percebeu a desvantagem dos vinhos argentinos. Ela viajou para a Argentina, percorreu os vinhedos e tentou entender o que poderia fazer para ajudar a melhorar a qualidade dos vinhos. Percebeu que era possível aprender sobre a produção de vinhos de alta qualidade de Cabernet Sauvignon, Chardonnay e Pinot Noir convidando enólogos de outras partes do mundo para a Argentina.
Mas, quando o assunto era Malbec, ninguém conseguia oferecer respostas. Isso porque a Argentina possui características muito específicas: vinhedos antigos massais pré-filoxéricos, plantados em grande altitude.
Laura então decidiu formar uma equipe de pesquisadores para responder a essas questões e compreender o Malbec no lote 18 do vinhedo Angélica. Entendemos que o material vegetal e sua qualidade eram fundamentais para alcançar grandes vinhos. Assim nasceu o Catena Institute of Wine (CIW), em 1995, iniciando com seu projeto fundador: Catena Cuttings.
2 – Como o Instituto evoluiu ao longo de quase 30 anos? Houve mudanças significativas de foco, objetivos ou metodologia nesse período?
A metodologia sempre foi a mesma: ciência para preservar a natureza e a cultura. O foco sempre foi elevar o vinho argentino para os próximos 200 anos. Para alcançar esse objetivo, trabalhamos e colaboramos com uma rede de especialistas de Mendoza (Argentina) e de outras partes do mundo, como UC Davis, Universidade de Bordeaux e Borgonha.
3 – O estudo de 2021 liderado pelo Dr. Roy Uvieta demonstrou diferenças químicas e sensoriais claras entre vinhos Malbec de áreas distintas de Mendoza. Como esse estudo foi conduzido na prática e qual foi seu impacto científico e comercial para a Argentina e para o mundo do vinho?

Mendoza é um dos poucos lugares do mundo com terroirs vitivinícolas marcadamente diferentes em distâncias muito curtas. Pela primeira vez, este estudo mostrou que o efeito do terroir pode ser descrito quimicamente, safra após safra, tanto em grandes regiões quanto em parcelas menores. Conseguimos prever a safra de cada vinho do estudo por meio de análises químicas.
Este é o primeiro estudo a comparar quatro níveis diferentes de terroir — três grandes regiões, seis departamentos, 12 indicações geográficas e 23 parcelas individuais (menores que um hectare) — ao longo de três safras diferentes (2016, 2017 e 2018). O estudo fornece dados climáticos detalhados, juntamente com análises químicas de 201 vinhos que foram todos microvinificados sob condições semelhantes. A análise quimiométrica permitiu agrupar os vinhos em regiões e parcelas distintas.
Nosso estudo dá respaldo científico ao que os monges cistercienses da Borgonha chamavam de cru, definido por Hugh Johnson como “uma seção homogênea do vinhedo cujos vinhos, ano após ano, provaram ter uma identidade de qualidade e sabor”. E hoje, pela primeira vez na literatura científica, o cru francês ganha um nome em espanhol, parcela, porque os vinhos estudados no Catena Institute of Wine eram de Mendoza, Argentina.
4 – Quais são atualmente as linhas de pesquisa mais relevantes do Instituto? Existem estudos em andamento relacionados às mudanças climáticas, sustentabilidade, biodiversidade ou novas técnicas de vinificação?
Vinhos de Parcela e Experimentação com Microvinificação• Uso da Vinícola Experimental para ensaios de vinificação em diferentes materiais (aço inoxidável, concreto, terracota e carvalho).• Pesquisa sobre o impacto do terroir e das técnicas de vinificação na qualidade do vinho.• Desenvolvimento dos “Vinhos de Parcela” do Vinhedo Adrianna, considerado por muitos o “Grand Cru da América do Sul”.
Novos potenciais “grands crus” – Terroirs argentinos emergentes• Identificação de novos potenciais sítios de grand cru, com pesquisas de solo e clima em Mendoza e em províncias fora de Mendoza, com fontes confiáveis de água, preparando-nos para um futuro climático incerto.
Gestão da água• Por meio de experimentos de campo com diferentes regimes de irrigação, monitoramos o estado hídrico das videiras, acompanhamos as condições climáticas e medimos o uso total de água. Isso nos permite identificar estratégias que equilibram eficiência de recursos com qualidade da uva e do vinho.
Vinhos de baixo teor alcoólico e sem álcool• Cada um desses produtos reflete nosso compromisso com a exploração e a inovação de ponta, provando que ciência e criatividade podem redefinir a forma como vivenciamos o vinho.
Preservação das seleções massais de Malbec• Catena Cuttings: uma coleção de 135 seleções de Malbec, plantadas com quatro mudas por linha no vinhedo La Pirámide.• Preservação de seleções massais de vinhedos em risco de erradicação: as variedades coletadas incluem Criollas, Moscatel Rosado, Cabernet Sauvignon, Malbec, Riesling, Syrah, Ugni Blanc e Semillon, plantadas no Catena Vine Conservatory Viejito de Rivadavia.
Sanidade vegetal• Vivero Supersónico: viveiro isolado administrado pelo Catena Institute no nordeste de Mendoza, com o objetivo de manter uma coleção de variedades livres de vírus.
5 – Desde 1995, o Catena Institute acumulou uma ampla gama de estudos. Na sua visão, quais são as três conquistas científicas mais importantes até agora e como elas beneficiaram diretamente consumidores e produtores argentinos — por exemplo, no desenvolvimento dos vinhos Catena Appellation?
É realmente muito difícil identificar apenas três conquistas científicas do trabalho do Catena Institute desde 1995, porque a pesquisa foi cumulativa e altamente interconectada, em vez de organizada como avanços isolados. Muitos dos progressos surgiram de programas de longo prazo que combinaram viticultura, ciência do clima, estudos de solo, enologia e análise sensorial, e não de estudos únicos que pudessem ser classificados de forma independente.

6 – A demonstração científica do terroir foi um marco importante. Como você enxerga a evolução dessa pesquisa? Existem novas descobertas sobre altitude, insolação, microclimas ou solos aluviais de Mendoza que ainda não chegaram ao público?
A pesquisa continua evoluindo. Estamos investigando como os vinhos de Mendoza evoluem ao longo do tempo. Nosso objetivo é entender quais fatores sensoriais e químicos predizem o potencial de envelhecimento, a fim de preservar a tipicidade e comunicar com rigor o caráter do Malbec, do Cabernet Sauvignon e do Chardonnay da Argentina.
7 – Instituições científicas frequentemente avançam mais rápido por meio da colaboração. O Catena Institute compartilha suas pesquisas com outras vinícolas, universidades ou até concorrentes internacionais? Como funciona essa troca de conhecimento?
Priorizamos a geração de informações rigorosas, revisadas por pares, e torná-las acessíveis além dos limites de uma única vinícola ou país. Compartilhamos nosso trabalho principalmente por meio de publicações científicas de acesso aberto, o que significa que qualquer vinícola, universidade, pesquisador ou estudante — na Argentina ou internacionalmente — pode acessar livremente os dados, métodos e conclusões, sem barreiras de assinatura. Isso permite que nossas descobertas sejam analisadas, replicadas e ampliadas, o que é essencial para a credibilidade científica.
Paralelamente, muitos de nossos projetos de pesquisa são conduzidos em colaboração com universidades e centros de pesquisa argentinos e internacionais, criando uma troca de conhecimento em mão dupla.
8 – Como é estruturada a equipe científica do Catena Institute? Quem são os principais pesquisadores, quais são suas formações acadêmicas e quais áreas de especialização estão representadas na equipe?
Em vez de ser organizada em torno de uma única disciplina, a equipe integra conhecimentos de viticultura, enologia e inovação sustentável, permitindo que as questões de pesquisa sejam abordadas a partir de múltiplas perspectivas científicas.
As principais áreas de especialização representadas incluem ciência do solo, gestão da água e irrigação, zoneamento de vinhedos e análise em nível de parcela, química da uva e do vinho, análise sensorial e desenvolvimento de produtos inovadores. Essa estrutura permite ao Instituto conectar variáveis do vinhedo — como composição do solo, disponibilidade de água e microclima — com a composição da uva, o estilo do vinho e a percepção sensorial.
Os membros da equipe vêm de diversas formações acadêmicas, incluindo agronomia, enologia, química e ciência sensorial, e muitos colaboram estreitamente com universidades e instituições de pesquisa na Argentina e no exterior.
Para mais informações visite: https://www.catenainstitute.com/#page-top
Os vinhos da Catena Zapata são importados com exclusividade pela Mistral Vinhos https://www.mistral.com.br/

Como a ciência redefiniu o terroir argentino: 30 anos do Catena Institute of Wine
Por: Cláudio Bastos - Boas Taças
Apoio à entrevista: Sofia Carvalhosa Comunicação
Fotos: https://www.catenainstitute.com/#page-top e divulgação


Comentários