Domaine Nico: o Pinot Noir de altitude que redefine os limites de Mendoza
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Inspirado na Borgonha, mas com identidade argentina, o novo projeto de Laura Catena revela como terroir, ciência e sensibilidade podem elevar o Pinot Noir a um novo patamar na América do Sul.

Degustação de lançamento da Domaine Nico no portfólio da Mistral Vinhos e, entrevista exclusiva com George Petersen, diretor comercial da vinícola - por Cláudio Bastos.
A história recente do vinho argentino tem sido marcada por uma busca cada vez mais profunda por identidade, e poucos nomes representam tão bem esse movimento quanto Laura Catena. À frente da icônica Catena Zapata e também de projetos autorais como a Luca Winery, Laura dá agora mais um passo importante com a criação da Domaine Nico.
Apresentada oficialmente em São Paulo, em um evento na Mistral, a nova vinícola nasce com uma proposta clara e ambiciosa: explorar o potencial do Pinot Noir em condições de altitude extrema em Mendoza. Inspirada nos grandes vinhos da Borgonha, especialmente da Côte d’Or, a Domaine Nico traduz esse conceito para a realidade argentina com uma abordagem própria, baseada na identificação de micro-terroirs e na expressão individual de parcelas específicas.
O projeto é também profundamente pessoal. O nome “Nico” é uma homenagem à filha de Laura, Nicola, e ao seu bisavô, Nicola Catena, que fundou a vinícola Catena Zapata em 1902, conectando passado, presente e futuro de uma das famílias mais importantes do vinho argentino. Mas, mais do que um tributo, a Domaine Nico é uma plataforma de investigação e refinamento: um verdadeiro laboratório a céu aberto onde altitude, solo e clima são explorados ao limite.
Com uvas provenientes de cinco parcelas distintas no Vale do Uco, a vinícola revela diferentes “crus” argentinos, cada um com identidade própria, mas unidos por uma assinatura comum: frescor, mineralidade e precisão. Esse trabalho é conduzido pelo enólogo Roy Urvieta, que alia experiência prática desde muito jovem ao rigor científico adquirido em sua trajetória acadêmica e no Catena Institute of Wine.
Durante a degustação, foi possível perceber claramente essa proposta na taça. Os rótulos apresentados: Grand Père, Grand Mère, La Savante e Histoire d’A, todos da safra 2023 evidenciam diferentes interpretações do Pinot Noir de altitude, variando entre perfis mais estruturados e profundos até expressões mais vibrantes, delicadas e minerais. Em comum, a elegância e a precisão, com taninos finos e acidez marcante.
Duas surpresas elevaram ainda mais a experiência: o sofisticado Le Paradis 2020, um dos ícones da casa, e um impressionante Luca Chardonnay 2006, que mostrou a capacidade de evolução e complexidade dos brancos de altitude elaborados por Laura Catena.
Mais do que um lançamento, a Domaine Nico representa um novo capítulo na história do vinho argentino: um capítulo em que o Pinot Noir deixa de ser coadjuvante para assumir um papel de protagonismo em um terroir até então improvável.
Foi nesse contexto que conversamos com George Petersen, diretor comercial da vinícola, logo após a apresentação.

Cláudio: Sabemos que a Laura Catena tem diversos projetos, como o Catena Institute of Wine e a própria Luca. Onde a Domaine Nico se encaixa nesse universo? É um projeto experimental, uma homenagem à Borgonha ou uma iniciativa mais comercial?
George Petersen: A Domaine Nico é um projeto de busca pela Pinot Noir. Nos inspiramos na Borgonha, sim - a Laura tem uma verdadeira obsessão por essa uva - e a ideia sempre foi trabalhar com parcelas específicas, quase como colocar na mesa os grandes “crus” da Borgonha, mas a partir de Mendoza.
É um projeto muito diferente de tudo o que já fizemos. O objetivo é mostrar ao mundo uma nova identidade: o Pinot Noir de altitude.
Cláudio: Você comentou que os Estados Unidos são o principal mercado e que o Brasil é um foco importante. Existe também uma estratégia de posicionamento para competir com Pinot Noirs da Borgonha em termos de qualidade?
George Petersen: Sim, essa é parte da estratégia. Hoje, o Pinot Noir argentino ainda não é amplamente conhecido no mundo, então também existe um trabalho de construção de percepção.
A ideia da Laura é oferecer vinhos de alta qualidade, que respeitem seu valor, mas que ainda sejam acessíveis. Não faria sentido posicionar nossos vinhos no mesmo preço de um Grand Cru da Borgonha, isso limitaria muito o acesso.
Queremos que mais pessoas descubram o Pinot Noir argentino, e o preço também é uma ferramenta para isso.
Cláudio: Na degustação, ficou muito clara uma identidade própria da Domaine Nico. Desde o início, a ideia era reproduzir o estilo da Borgonha ou criar algo novo?
George Petersen: A Borgonha sempre foi a grande referência da Laura, desde as primeiras explorações no Vale do Uco. Mas, na Domaine Nico, deixamos muito claro: nos inspiramos na Borgonha, mas a identidade é argentina.
Buscamos conceitos como os climats, os micro-terroirs, o uso de madeira, o trabalho com cachos inteiros… mas sempre respeitando o nosso terroir: o solo, a altitude, o clima.
O resultado não é uma cópia, mas uma interpretação.

Cláudio: Essa diversidade de micro-terroirs ficou muito evidente durante a degustação. O trabalho do Catena Institute of Wine foi fundamental nesse processo?
George Petersen: Fundamental, e foi o ponto de partida. Através de pesquisas, análises e muita experimentação, começamos a entender o comportamento dos diferentes clones e solos.
O próprio Roy Urvieta comentou que, em algumas parcelas, determinados clones não se adaptavam bem: entregavam mais cor, mas menos textura, por exemplo.
Foi o Instituto que nos deu base científica para entender como cada elemento se expressa na Pinot Noir.

Cláudio: Os nomes dos vinhos: Grand Père, Grand Mère, La Savante, Histoire d’A têm significados muito interessantes. Você poderia comentar um pouco sobre isso?
George Petersen: Esses nomes surgiram de forma muito natural para a Laura — e, curiosamente, sempre em francês. Alguns vieram em sonhos, outros durante degustações das parcelas.
Grand Père e Grand Mère fazem referência aos avós, com essa ideia de cuidado e afeto. La Savante significa “a sábia”, uma homenagem às mulheres acadêmicas: um vinho mais sério, mais intelectual.
Le Paradis, por exemplo, faz referência ao vinhedo em Gualtallary, a cerca de 1.500 metros de altitude: um lugar realmente único em Mendoza e "próximo ao paraíso".
Além disso, cada contrarrótulo traz frases que refletem as experiências pessoais da Laura, com referências literárias e familiares. Tem frases de Dante Alighiere, de Leo Tolstoy que fala sobre tempo, tem uma frase da avó de Laura, que fala sobre aprendizagem. Em resumo, os nomes dos vinhos falam muito sobre as experiencias de Laura.

Cláudio: Pensando no portfólio da Laura: Catena Zapata, Luca e Domaine Nico, como você diferencia essas marcas no mercado?
George Petersen: A estratégia da Domaine Nico é completamente diferente da Luca.
Nico é um projeto de nicho, com produção limitada, focado em Pinot Noir de altíssima qualidade, quase como um “Grand Cru” argentino. Não buscamos volume, mas sim transmitir uma mensagem muito clara sobre terroir e identidade.
Já a Luca é mais diversa: trabalha com Chardonnay, Pinot Noir, Syrah, blends e Malbec. E certamente que as pessoas pensam: Catena Zapata também tem muitas dessas variedades! Como Luca consegue se diferenciar? Uma coisa que pensamos em diferenciar é pela mensagem: o marketing das vinhas velhas; que Laura foi la primeira que começou a preservar as vinhas velhas, e todos os vinhos de Luca vem de vinhas velhas. O Malbec que temos tem em média idade de 72 anos das videiras. Temos plantas de 1924.
E Luca é uma produção mais limitada que a de Catena Zapata, são rendimentos mais baixos, e temos que ter um preço condizente com os vinhos que elaboramos. E Luca também tem um diferencial de trabalhar com produtores pequenos. Preserva as vinhas velhas, mas trabalha com pequenos produtores.O grande diferencial é o foco em vinhas velhas - muitas com mais de 70 anos - e o trabalho com pequenos produtores.
É também um projeto com forte impacto social, apoiando famílias que cultivam vinhedos há gerações.
Cláudio: Esse trabalho com pequenos produtores é algo muito forte na filosofia da Laura, certo?
George Petersen: Sem dúvida. Em Mendoza, cerca de 60% dos vinhedos estão nas mãos de pequenos produtores.
O tamanho médio desses vinhedos são de cinco hectares. São famílias que realmente trabalham junto à familia Catena faz muito tempo, e este projeto de Luca, dizemos com Laura de que somos conscientes de que temos que vender mais vinho para preservar mais vinhas velhas e para fazer com que o negócio destas famílias pequenas seja mais rentável.
Uma das grandes decisões da Laura, lá nos anos 90, foi pagar pelas uvas por hectare, e não por quilo. Isso incentivou a qualidade, com rendimentos mais baixos, e garantiu estabilidade para as famílias.
Em anos difíceis, elas também recebem suporte técnico. São relações de confiança, muitas vezes baseadas apenas na palavra. Muitas vezes na Argentina os acordos de palavra valem mais que os acordos formais.
Cláudio: Para finalizar: se você fosse apresentar a Domaine Nico para um consumidor brasileiro, de forma simples e direta, o que diria? Melhor, eu sou seu amigo; como você me apresenta Domain Nico? Você chega na minha casa para jantar com uma garrafa de Domaine Nico, o que você me diria?
George Petersen: Eu diria: este é um Pinot Noir argentino que pode te transportar para a Borgonha.
É um vinho elegante, acessível dentro da sua categoria e muito fácil de beber. A ideia é justamente essa: proporcionar essa experiência de textura, frescor e tensão que associamos aos grandes Pinot Noir do mundo.
Cláudio: Vocês já fizeram degustações às cegas comparando com outros países?
George Petersen: Estamos começando um projeto nesse sentido. Vamos realizar degustações às cegas com Pinot Noirs de diversas regiões: Borgonha, Oregon, Argentina, entre outros, não para dizer qual é melhor, mas para entender a tipicidade de cada um.
A ideia é desenvolver um estudo científico, junto ao Catena Institute of Wine e à Universidade da Borgonha, sobre o que realmente define a Pinot Noir em diferentes terroirs.
Nosso agradecimento ao George pelo seu tempo para a entrevista e apresentação na degustação, ao Roy pela apresentação na degustação e à Mistral e Domaine Luca pelo convite para a degustação.

Após a entrevista com George, entendi que mais do que uma nova vinícola, a Domaine Nico representa uma mudança de perspectiva. Em um país historicamente associado a uvas como Malbec, o projeto liderado por Laura Catena mostra que há ainda muito a ser explorado, especialmente quando o assunto é precisão, elegância e expressão de terroir.
Ao apostar em parcelas específicas, altitudes extremas e um olhar quase científico sobre o comportamento da Pinot Noir, a vinícola não apenas se inspira na Borgonha, mas propõe uma nova leitura, genuinamente argentina, dessa que é uma das uvas mais desafiadoras do mundo.
Os vinhos degustados deixam claro que não se trata de uma simples homenagem, mas de uma construção sólida de identidade, onde frescor, mineralidade e textura se unem a uma narrativa que conecta tradição, inovação e sensibilidade.
Se ainda há dúvidas sobre o potencial do Pinot Noir argentino, a Domaine Nico surge como resposta, e, ao mesmo tempo, como provocação.
Porque, no fim, talvez a pergunta não seja mais se Mendoza pode produzir grandes Pinot Noirs, mas até onde essa nova fronteira pode chegar.
Domaine Nico: o Pinot Noir de altitude que redefine os limites de Mendoza
Texto e Fotos por Cláudio Bastos - Boas Taças



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