VAENI Naoussa: uma imersão no mundo do Xinomavro e na hospitalidade grega
Por trás de uma taça de vinho existe quase sempre uma história. Em Naoussa, no norte da Grécia, essa história começa muito antes da garrafa chegar à mesa, passa por uma uva autóctone de personalidade marcante - Xinomavro, por gerações de viticultores, por uma cooperativa criada para valorizar o trabalho do produtor e termina, muitas vezes, diante de uma mesa farta, cercada de amigos. Foi assim que vivemos nossa visita à VAENI Naoussa.

No dia 10 de junho, durante nossa viagem pela Grécia, eu, Rosane Flinkas, Marcos e Teresa Araripe tivemos a oportunidade de conhecer de perto a VAENI Naoussa, uma das mais importantes cooperativas vitivinícolas da região, a convite do Ricardo Dalle Lucca, proprietário da DÉJÀVINO, importadora responsável por seus vinhos no Brasil.
A visita acabou sendo muito mais do que uma degustação. Foi uma verdadeira imersão na cultura de Naoussa, em sua viticultura, em sua principal uva, o Xinomavro, e, sobretudo, na maneira grega de receber.
Fomos recebidos na cooperativa por Konstantinos Mantsos, Export Manager da VAENI, e Petros Bahlinger, Diretor Adjunto, que nos apresentaram a história da empresa, a região, seus vinhedos e, naturalmente, uma seleção de 13 vinhos do portfólio.
E se a degustação foi o ponto de partida, ela certamente merecerá um capítulo à parte. Ao longo dos próximos textos, vou contar individualmente como cada um desses vinhos se apresentou na taça e, principalmente, qual foi a minha percepção sobre eles.
Mas, antes de falar dos vinhos, vale entender onde estávamos.
Tradução da placa: Município da cidade heroíca de Naoussa
Naoussa, terra do Xinomavro
Naoussa está localizada na região da Macedônia Central, no norte da Grécia, aos pés do Monte Vermio. É uma das mais importantes regiões vitivinícolas do país e tem no Xinomavro sua grande identidade.
A própria história da região está profundamente ligada ao vinho. Naoussa possui uma tradição vitivinícola antiga e, segundo registros históricos, seus vinhos já tinham reputação muito antes da moderna indústria grega. A região foi oficialmente reconhecida como área de Denominação de Origem em 1971, e seus vinhos tintos de Naoussa são produzidos exclusivamente com Xinomavro.
O cenário ajuda a entender por que a variedade encontrou ali um de seus grandes territórios.
Os vinhedos da região estão distribuídos principalmente pelas encostas sudeste do Monte Vermio, em altitudes que podem chegar a aproximadamente 350 metros. São áreas protegidas dos ventos frios do norte, com invernos frios, verões quentes e solos que combinam características argilosas e calcárias.
É um terroir que oferece condições particularmente interessantes para o amadurecimento do Xinomavro.
E é impossível falar de Naoussa sem falar dessa uva.
Xinomavro: a identidade de Naoussa
O nome Xinomavro pode ser traduzido, de maneira aproximada, como uma combinação das palavras gregas para “ácido” e “negro”, uma referência à sua acidez natural e à intensidade de sua coloração. É uma variedade autóctone do norte da Grécia e uma das grandes representantes da viticultura grega.
Embora seja encontrada também em outras regiões do país, é em Naoussa que ela alcança uma de suas expressões mais emblemáticas.
É uma uva que não costuma passar despercebida.
Os vinhos elaborados com Xinomavro podem apresentar acidez elevada, taninos marcantes e uma enorme capacidade de evolução, além de um perfil aromático que pode caminhar das frutas vermelhas e negras para notas mais complexas, incluindo especiarias, ervas, tomate, azeitona, couro, terra e características terciárias com o envelhecimento.
É justamente essa combinação de acidez, taninos e capacidade de envelhecimento que faz com que o Xinomavro seja frequentemente comparado, em determinados estilos, ao Nebbiolo italiano. A comparação pode ser útil como referência para quem ainda não conhece a variedade, embora o Xinomavro tenha personalidade própria e não deva ser reduzido a uma simples “versão grega” de outra uva.
Na legislação da denominação Naoussa, os vinhos tintos com a denominação de origem são elaborados exclusivamente com Xinomavro. Na própria VAENI, a variedade ocupa posição central, mas a cooperativa também trabalha com outras castas, incluindo Roditis, Syrah e Merlot, além de diferentes estilos de vinhos.
E essa diversidade apareceu claramente na degustação que fizemos.
Foram 13 vinhos apresentados por Konstantinos e Petros, mostrando diferentes interpretações e possibilidades dentro do portfólio da cooperativa.
Mas, novamente, deixo os comentários de cada rótulo para o próximo capítulo.
Uma cooperativa criada pelos próprios produtores
A história da VAENI é particularmente interessante porque nasce de uma iniciativa dos próprios viticultores.
Em 1983, 330 produtores de uvas da zona de denominação de Naoussa decidiram criar sua própria cooperativa, buscando melhorar a utilização de sua produção e, ao mesmo tempo, criar uma alternativa de maior força diante das empresas privadas que atuavam no mercado. A estrutura da vinícola foi estabelecida em 1984.
Quatro décadas depois, a VAENI se transformou em uma das maiores e mais importantes estruturas cooperativas de vinho da região.
Segundo informações da própria empresa, atualmente a cooperativa reúne cerca de 200 viticultores, e sua produção representa aproximadamente 50% da produção de vinho da região de Naoussa.
É um número bastante expressivo.
Na prática, significa que falar da VAENI é falar também de uma parcela muito importante da própria viticultura de Naoussa.
A cooperativa trabalha com tecnologia moderna, controle de qualidade e acompanhamento técnico dos produtores, procurando combinar a experiência acumulada ao longo de décadas com métodos contemporâneos de vinificação.
Sua estrutura inclui áreas de vinificação, amadurecimento, engarrafamento, armazenamento e laboratório para análises químicas. A empresa também mantém sistemas de controle e segurança alimentar certificados, reforçando uma preocupação que vai da uva ao produto final.
Atualmente, a VAENI apresenta 28 rótulos, acumula 30 prêmios de qualidade e informa estar presente em 31 países de exportação.
É uma dimensão que talvez não seja imediatamente imaginada quando pensamos em uma cooperativa localizada em uma região relativamente pequena do mapa vitivinícola mundial.
Do norte da Grécia para o mundo
A internacionalização é uma parte importante da trajetória da VAENI.
A cooperativa informa que seus vinhos são exportados para diversos mercados, incluindo países da Europa, América do Sul, do Norte, Ásia e Oceania. Entre os mercados mencionados pela empresa estão Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Holanda, Bélgica, Suécia, Áustria, Suíça, Reino Unido, Polônia, República Tcheca, Sérvia, Chipre, China, Japão, Austrália, Nova Zelândia, Ucrânia, Belarus, Brasil e Cazaquistão, além de outros destinos.
Uma página da própria cooperativa informa ainda que as exportações chegaram a representar cerca de 30% das vendas, evidenciando que o Xinomavro e os demais vinhos produzidos em Naoussa já ultrapassaram há muito tempo as fronteiras gregas.
E existe algo particularmente interessante nisso.
Por muito tempo, para grande parte do consumidor brasileiro, quando se falava em vinho grego, os nomes mais conhecidos estavam associados principalmente a algumas variedades específicas de outras regiões do país.
Naoussa mostra uma outra Grécia.
Uma Grécia de clima continental, montanhas, altitude, tintos de acidez e taninos marcantes e uma variedade autóctone capaz de produzir vinhos com grande potencial gastronômico e de envelhecimento.
Muito além do Xinomavro
Embora o Xinomavro seja claramente a estrela, a diversidade da viticultura grega não termina nele.
A Grécia possui uma das maiores riquezas de variedades autóctones do mundo do vinho, resultado de uma história vitivinícola que atravessa milhares de anos.
Na região de Naoussa, além do Xinomavro, variedades históricas como Negoska, Naousseiko, Sefka e Prekniariko fazem parte da tradição vitícola regional, enquanto a VAENI também trabalha com castas como Assyrtiko, Malagouzia, Roditis, variedades brancas tradicionais gregas, e com internacionais como Chardonnay, Syrah e Merlot.
Essa convivência entre tradição e modernidade é uma característica que me chamou a atenção durante a visita.
De um lado, uma variedade autóctone que está ligada à identidade de Naoussa há centenas de anos.
De outro, uma cooperativa que utiliza tecnologia contemporânea, possui estrutura para produção em escala e coloca seus vinhos em mercados de diferentes continentes.
É justamente nesse equilíbrio que a VAENI parece encontrar seu espaço.
Treze vinhos e muitas interpretações
Foi nesse contexto que começamos nossa degustação.
Konstantinos Mantsos e Petros Bahlinger nos conduziram por uma seleção de 13 vinhos da VAENI, permitindo perceber que falar de Xinomavro é falar de uma variedade muito mais versátil do que sua fama de grande uva tinta de Naoussa poderia sugerir.
Há diferentes estilos, diferentes níveis de concentração, diferentes propostas de amadurecimento e diferentes maneiras de mostrar a identidade da região.
E foi uma degustação particularmente interessante justamente porque não se tratou apenas de provar rótulos.
A cada taça havia uma oportunidade de entender um pouco mais sobre a relação entre a uva, o território e a maneira como a cooperativa trabalha.
Alguns vinhos me chamaram mais atenção pela estrutura. Outros pela fruta. Outros pela acidez, pela elegância ou pela capacidade gastronômica.
Mas não vou antecipar aqui minhas impressões sobre cada um.
Nos próximos textos, vou abrir uma garrafa de cada vez, ou melhor, voltar à memória de cada uma das taças, para contar o que encontrei em cada vinho e qual foi a minha impressão pessoal sobre eles.
Porque, depois de conhecer a região e a história da cooperativa, degustar aqueles vinhos ganhou um significado diferente.
Mas nossa visita ainda estava longe de terminar.
Quando a degustação virou uma experiência pessoal
No final da degustação aconteceu uma daquelas situações que tornam uma visita de vinho muito mais especial.
O presidente da cooperativa, George Fountoulis, juntou-se a nós.
E o encontro que poderia ter terminado com os últimos comentários sobre os vinhos acabou se transformando em um convite para conhecer um pouco mais de sua vida e de sua terra.
George nos convidou para conhecer seus vinhedos, sua casa, sua torre medieval, sua plantação de cerejas e sua destilaria, onde produz seu próprio Tsipouro.
E foi impossível não perceber que, naquele momento, estávamos deixando de ser simplesmente visitantes de uma vinícola para nos tornar convidados de alguém que queria compartilhar conosco um pouco daquilo que fazia parte de sua própria história.
Tsipouro: a alma destilada da Grécia
Para quem está acostumado a pensar na Grécia apenas através do vinho, o Tsipouro abre uma nova porta para a cultura das bebidas do país.
Trata-se de uma aguardente tradicional grega produzida a partir da destilação do bagaço das uvas, depois da vinificação. Dependendo da região e do produtor, pode apresentar diferentes estilos e, em algumas versões, receber a adição de ervas ou outras características aromáticas.
É uma bebida profundamente ligada à cultura gastronômica grega.
Mais do que simplesmente um destilado, o Tsipouro costuma estar associado ao ato de sentar à mesa, conversar, compartilhar pequenos pratos e prolongar o encontro.
E foi exatamente nesse espírito que o conhecemos na propriedade de George.
Ver de perto a pequena e artesanal destilaria e saber que aquele Tsipouro era produzido por ele mesmo acrescentou uma dimensão completamente diferente à experiência.
Ali estavam reunidos vinho, uva, destilação, agricultura, história e hospitalidade.
Entre vinhedos, cerejas e uma torre medieval
A visita à propriedade de George também nos permitiu perceber que a relação com a terra em Naoussa não se resume às videiras.
Conhecemos seus vinhedos e também sua plantação de cerejas, outra produção agrícola importante da região.
E então veio o sonho realizado da torre medieval.
Em meio à paisagem, conhecer aquela construção moderna voltando à história pelas mãos do próprio George foi um daqueles momentos em que a viagem deixa de ser apenas turística.
Não estávamos diante de um monumento moderno apresentado por um guia.
Estávamos diante de um lugar apresentado por alguém que tinha uma relação pessoal com aquela terra e com aquela história.
É difícil explicar exatamente esse tipo de experiência.
Ela não está necessariamente em um roteiro.
Ela acontece.
E foi isso que aconteceu conosco naquele dia.
Um almoço que parecia não ter hora para terminar
Depois da visita, George nos fez outro convite.
Um longo almoço em um restaurante local, na cidade de Naoussa, ao lado de Konstantinos.
E aqui talvez esteja uma das melhores maneiras de entender a hospitalidade grega.
Sentamos à mesa e começaram a chegar os pratos.
Comida regional, preparações tradicionais, ingredientes locais e aquela característica da gastronomia grega de colocar a mesa no centro da experiência.
E, naturalmente, os vinhos da VAENI também estavam presentes.
Aquela degustação técnica que havia começado algumas horas antes ganhou uma nova dimensão.
Agora os vinhos estavam diante de nós acompanhando comida, conversa, risadas e histórias.
Foi uma situação muito diferente de uma degustação profissional.
Não havia pressa.
Não havia aquela preocupação de terminar uma ficha técnica, organizar as taças ou passar para o próximo rótulo.
Havia tempo.
Tempo para comer.
Tempo para beber.
Tempo para conversar.
Tempo para conhecer as pessoas.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das grandes diferenças entre simplesmente provar um vinho e viver uma experiência de vinho.
Brasil e Grécia à mesa
Em determinado momento, nós também entregamos a George e Konstantinos um presente que levamos do Brasil: camisas da Seleção Brasileira.
A reação deles foi ótima.
E aquele pequeno gesto acabou simbolizando uma coisa que talvez seja difícil colocar em palavras.
O vinho tem uma capacidade extraordinária de aproximar pessoas que vivem a milhares de quilômetros de distância.
Nós estávamos em Naoussa, no norte da Grécia.
Eles, em uma região cuja história vitivinícola atravessa séculos.
Nós levamos conosco um pouco do Brasil.
Eles nos ofereceram um pouco da Grécia.
E, entre uma taça e outra, percebemos que havia muito mais coisas em comum do que as diferenças de idioma, distância e cultura poderiam sugerir.
A hospitalidade que não cabe em uma ficha técnica
Passamos horas à mesa.
E essa talvez tenha sido uma das partes mais marcantes de toda a experiência.
Porque hospitalidade não é algo que possa ser colocado em uma ficha técnica.
Não aparece no rótulo.
Não está na análise laboratorial.
Não pode ser medida em porcentagem de álcool, acidez ou açúcar residual.
Mas pode ser sentida.
E naquele almoço ela estava presente o tempo todo.
George, Konstantinos e todos que participaram daquele encontro fizeram questão de compartilhar conosco muito mais do que seus vinhos.
Compartilharam sua comida, sua terra, sua história e seu tempo.
E isso é algo que, para mim, faz uma enorme diferença quando conhecemos uma região produtora.
O vinho deixa de ser apenas uma bebida.
Passa a ser uma porta de entrada para um território.
VAENI: quando o vinho representa uma região
Ao sair de Naoussa naquele dia, a sensação era de que havíamos conhecido muito mais do que uma cooperativa.
Conhecemos uma parte importante da identidade vitivinícola da Macedônia grega.
Conhecemos uma estrutura que nasceu em 1983 da união de centenas de viticultores e que, quatro décadas depois, continua representando uma parcela significativa da produção de vinho de Naoussa.
Conhecemos uma região onde o Xinomavro encontrou um de seus grandes territórios.
Conhecemos uma cooperativa que hoje possui dezenas de rótulos e exporta para dezenas de países.
E conhecemos pessoas que demonstraram, de uma maneira muito concreta, que a cultura do vinho pode ser também uma cultura de encontro.
Naoussa talvez ainda seja pouco conhecida do grande público brasileiro.
Mas para quem gosta de vinho, vale começar a prestar atenção.
Especialmente quando se procura conhecer não apenas as grandes variedades internacionais, mas também as uvas autóctones que ajudam a contar a história de seus territórios.
E poucas variedades contam uma história tão particular quanto o Xinomavro.
E ainda faltavam 13 vinhos para contar...
A visita à VAENI terminou, mas a história daqueles 13 vinhos ainda estava apenas começando.
Ao longo da degustação, tivemos a oportunidade de conhecer diferentes estilos e expressões do portfólio da cooperativa.
Alguns rótulos surpreenderam pela estrutura.
Outros pela elegância.
Outros pela relação entre fruta, acidez, taninos e madeira.
E alguns me fizeram olhar para o Xinomavro de uma maneira ainda diferente.
Por isso, preferi não transformar este artigo em uma lista de notas e descrições técnicas.
Quero contar a experiência de cada vinho separadamente.
Porque, depois de conhecer os vinhedos, conversar com quem faz o vinho, caminhar pela propriedade de George, conhecer sua torre, suas cerejas e sua destilaria, provar seu Tsipouro e terminar o dia em uma longa mesa grega, cada garrafa passou a carregar um pouco mais de significado.
No fim das contas, talvez seja exatamente isso que procuramos quando viajamos pelo mundo do vinho.
Não apenas descobrir novos rótulos.
Mas descobrir de onde eles vêm, quem os faz, quais histórias carregam e quais pessoas encontramos pelo caminho.
E, nesse dia em Naoussa, encontramos tudo isso.
Entre o Xinomavro, as montanhas do Vermio, os vinhedos, as cerejas, o Tsipouro, os pratos da cozinha local e muitas horas de conversa, a VAENI nos mostrou que, na Grécia, uma visita a uma vinícola pode começar com uma degustação de vinhos e terminar como uma reunião entre amigos.
E talvez essa seja uma das melhores definições para a experiência que tivemos: começamos como visitantes da VAENI Naoussa e terminamos o dia nos sentindo convidados de uma casa grega.
E isso, definitivamente, não se coloca dentro de uma garrafa.
Um enorme obrigado à Konstantinos, George e Petros pela recepção excepcional e ao Ricardo Dalle Lucca pelo convite! YAMAS!
VAENI Naoussa: uma imersão no mundo do Xinomavro e na hospitalidade grega
Texto por Cláudio Bastos
Fotos por Cláudio Bastos - Boas Taças e Marcos Araripe



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